Convidámos para jantar… Lestat de Lioncourt

Leiam mais sobre o projecto Convidei para jantar, como podem participar e receber este passatempo nos vossos blogues, neste post.

Não sei quantos de vós conheceram  os vossos significant others por causa de um livro ou um escritor, mas  é a Anne Rice e às suas personagens que eu o viking agradecemos o facto de nos termos encontrado, e por isso não podíamos deixar passar este mês sem convidar para jantar connosco a sua mais brilhante criação: Lestat de Lioncourt.

Receber em nossas casas pessoas com hábitos alimentares  diferentes dos nossos é sempre um pouco complicado e requer alguma imaginação, mas o que servir num jantar em que o convidado segue uma restrita dieta de sangue humano?

Para o menu deste jantar optámos por servir pratos que Lestat pudesse saborear sem comer. À primeira vista parece estranho, mas não é diferente da forma como muitos de nós “saboreamos” coisas como um livro novo que nos chega às mãos, ou entrar num quarto acabado de encerar. Uma refeição que tenta realçar as sensações trazidas pelos restantes sentidos, comida que se pode tocar, escutar, ver e cheirar. Brincámos com cores, texturas, temperaturas e um tema relacionado com o convidado.

Para evitar o desconforto de nos sentarmos à mesa com alguém que não come, servimos um jantar muito leve e informal  na sala, sem pratos, garfos ou facas.

A imagem que tenho de Lestat é a mesma de há quase vinte anos, quando pela primeira vez o conheci nos livros de Anne Rice e no filme “Entrevista com o Vampiro.” Imagino-o alto, loiro, sedutor, vejo-o de casaca de veludo e punhos de renda, um retrato do século XVIII que há muito deixou para trás.

O Lestat que recebemos é diferente, menos exuberante. Noto-lhe o charme e sorriso fáceis e despretensiosos com que me  entrega flores e uma garrafa de Chateau d’Yquem.

Quando chego à sala com a entrada, Lestat e o viking perderam já o desconforto da primeira conversa entre estranhos. Acenderam as velas, escolheram música, Lestat folheia com curiosidade um dos livros da secção Vampiros não –  ficção. Aproveito e pergunto-lhe acerca da Ilha de Santorini, onde se diz viverem milhares de vampiros.

-É infelizmente verdade e a pequena ilha está cada vez mais in  também entre os novos vampiros. Não imaginam o preço do metro quadrado de cripta! Mais caro que uma penthouse  no Upper East Side. – conta-nos.

A entrada é uma versão de sangria com glóbulos vermelhos de vinho tinto e especiarias, que ao derreterem invadem a bebida de um vibrante tom carmim que parece fascinar Lestat. Enquanto brinca com os pedaços de gelo confidencia-nos que depois de mais de duzentos anos o sangue perdeu um pouco o seu fascínio, e por ser tão forte raramente precisa de se alimentar.

Segue-se o prato principal: Mais uma brincadeira pelo mundo dos mitos ligados aos vampiros. Borscht, uma sopa de beterrabas tradicional em países com a Roménia, acompanhada de manteiga com alho e endro e pão torrado.

Falamos de estórias e velhas tradições, dos vampiros clássicos como o Conde  “um snob que não soube adaptar-se aos tempos modernos e vive quase enclausurado no seu castelo”, de Bela Lugosi e de Murnau.

Conta-nos que conhece alguns dos vampiros modernos, esteve há pouco tempo com Eli e Oskar. Eli, a vampira menina sueca recorda-o de Claudia, e lembra com saudades os tempos em que viveu feliz na companhia da sua pequena filha e de Louis.

Enquanto parte pedacinhos de pão que mergulha na manteiga de alho e oferece a Lestat – O gato, partilha o seu desagrado pelos novos vampiros muito em voga nos últimos tempos:

- Este grupinho de vampiros vegan que usam protector solar e brilham é a coisa mais patética que vi nos  últimos séculos. Com tempo e poder para viver todas as aventuras, visitar todos os locais, conhecer as mais interessantes pessoas do nosso mundo e do vosso, preferem passar a eternidade a fazer-se passar por estudantes teenagers com ares de James Dean falhado?! E dizem-se vampiros??

Para o acalmar sugiro que passemos à sobremesa, gelatina de laranja sanguíneas e chili com licor de laranja. Servimos o Sauternes e pela primeira vez vejo uma sombra de tristeza, quase melancolia no seu rosto. Evito pensar que talvez o vinho lhe recorde a sua vida humana, um jovem aristocrata francês a quem nunca foi dada a escolha da mortalidade.

Lestat – O gato, instala-se ao seu colo, num gesto de conforto e confiança que raramente mostra a quem nos visita, o nosso convidado fala-nos da sua mãe, o único membro da sua família mortal que tornou vampiro. Promete-nos que para a próxima trará Gabrielle para jantar connosco.

Olho sem querer para o relógio, em breve o nosso convidado precisará de encontrar um refúgio onde possa evitar o único inimigo que o pode vencer.

- Não te preocupes. – sossega-me – É Inverno e estamos na Suécia, temos a noite toda para conversar.

Como o post já vai tão longo, partilho hoje convosco apenas como fiz a sobremesa. As receitas do pão e do Borscht serão publicadas brevemente.

Gelatina de laranja sanguínea com chili e licor

Nesta gelatina uso Chili, se não os encontrarem, talvez um flocos de malagueta seca sejam o suficiente para o toque picante desta sobremesa.

Ingredientes: (duas taças)

  • 3 dl de sumo natural de laranja sanguínea
  • 1/2 dl de licor de laranja (Triple Sec como  Cointreau ou Grand Marnier)
  • 2 folhas de gelatina
  • chili seco em flocos
  • 1/3 de um pimento chili fresco
  • iogurte grego

Preparação:

Coloquem o chili fresco a marinar no licor de laranja.

Misturem o sumo de laranja com o licor (sem o pimento). Acrescentem as folhas de gelatina previamente amolecidas em água fria, misturem até tudo estar bem dissolvido. Deitem o preparado em tacinhas e levem ao frigorífico até solidificar. Sirvam com iogurte grego e uns salpicos de chili seco.

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9 comments

  1. Ana,
    Que convidado tão original! O teu jantar fez um brilharete, aposto, tudo com cor tão vibrante. Adorei, simplesmente. Fico ansiosamente a aguardar a restantes receitas.
    Beijinhos

  2. Querida Ana, fabuloso! Um convite deveras original assim como o convidado e o menu. Aposto que Lestat adorou a companhia e as cores vibrantes da refeição. E se o teu gato se aninhou ao colo dele, é boa pessoa (vampiro neste caso!). Gostei do cuidado e dos pormenores escolhidos para a refeição, e do texto. Fizeste-me recordar a adolescência.
    (vamos ver se ainda conseguirei participar neste desafio que ando a adorar ler aqui e noutros blogs. mas o tempo e a recuperação são tramados!)
    Um beijinho.

  3. Ana, que difícil deve ser a escolha de um menu para um convidado de requisitos tão ‘especiais’. :) Mas saíste-te com um menu perfeito. Gostei particularmente da sangria com glóbulos vermelhos de vinho tinto e especiarias. :) Adorei ler este post. Beijinho

  4. Ana, adorei! Todos os pratos que serviste em vermelho vivo de sangue estão soberbos, bem vampirescos! De certeza que o Lestat também vibrou com a refeição que recordará por muitos e bons séculos:) Está simplesmente deliciosa a tua história!
    Eu já escolhi quem vou convidar:):) Ando aqui a conceber a ementa, mas está para breve:)
    Beijinhos:)

  5. Ana, a tua história está fantástica (deve ser mesmo este o termo) e diria mesmo insuperável, pela escrita, pela escolha do cardápio…
    Será que posso convidar o “meu” personagem para um lanche (chá) ou tem mesmo de ser um jantar?
    Bjnhos

  6. Adoro essa ideia de brincar com as personagens. Talvez participe também, se me lembrar de alguma coisa que faria para alguém. :P Mas direi aqui se participar. E adorei principalmente a sobremesa, embora a bebida e sopa também estejam lindissimas.. *

  7. Consegui imaginar o teu jantar ao ler este maravilhoso texto. Os meus parabéns. Escrever bem é uma arte que admiro e respeito.

    Os pratos, bom estão lindos, muito bem pensados para o convidado em questão (e não só!).

    Beijinhos

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