Month: November 2012

Convidei para jantar – Paris

A nona edição do Convidei para Jantar decorre este mês em casa da Marmita que nos desafiou a convidar uma cidade ou país para jantar. Eu, de maleta aviada, meti-me num avião e fiz me convidada de Paris.

Enquanto a cidade ainda dormia, passei algumas horas no restaurante onde mais tarde sabia iriamos   jantar. Queria preparar-lhe uma surpresa.

Encontramo-nos cedinho à entrada do seu apartamento. Paris vive numas águas furtadas na Rue de Rivoli,  com vista para o Louvre, a dois passos da muito chic Rue Royale, um salto até ao Palais Garnier.

Imaginava-a uma senhora clássica e reservada, bem penteada e num fato chanel. A Paris que vejo sair do elevador é surpreendentemente diferente, não soubesse eu que Amélie continua feliz em Montmartre e juraria que se trata da mesma pessoa.

Cumprimenta-me como se fossemos velhas amigas e saímos para croissants e café enquanto planeamos o nosso dia com mais detalhe. Quer mostrar-me/se no seu melhor. Com Paris não há filas intermináveis à entrada dos monumentos, pedintes nem restaurantes e lojas de recordações para turistas.

Passamos a manhã entre Gárgulas e Quimeras. Conta-me que mais tarde, e com a Notre Dame já encerrada, gosta de voltar a visitar estes seus amigos de pedra que ganham vida durante a noite e com os quais gosta de se observar. Obras numa antiga igreja, um novo centro comercial, a restauração de uma ponte.

Visitamos de seguida a Sainte-Chapelle, um tesouro onde nos perdemos durante horas. Passamos a tarde em Montmatre e Pigalle, tomamos café com Marcel Aymé, Amélie chega mais tarde, teve de esperar que o seu bebé acordasse da sesta.

Para o jantar Paris tinha já reservado a sua mesa habitual no Les Deux Magots. Todos se alegram com a sua chegada, Sartre e Simone de Beauvoir esperam já por nós. À nossa mesa chegam imediatamente os aperitivos e Champagne, o Chef vem cumprimentar-nos e sugerir um menu especial para o nosso jantar.

Depois do jantar é a minha vez de surpreender Paris e com o café são servidos os Pastéis de Nata que horas antes tinha preparado no restaurante e que a todos deliciam. “Deixaste a receita com o Chef?”  – pergunta-me.

Despedimo-nos na entrada do metro. Eu estou cansada e quero dormir um pouco antes de regressar a casa. Para Paris a noite ainda está a começar. “Vou passar por Notre Dame, para partilhar estes bolinhos com as Quimeras” – diz-me enquanto olha sorridente para a caixa de pastéis de nata que trouxe ainda quentes do restaurante.

Pastéis de Nata

Para este clássico que em Paris se vende até no KFC, usei a receita do maravilhoso Sabores da Alma, mas admito que fiz batota e usei massa folhada congelada. Uma vergonha…bem sei. Para disfarçar a coisa usei um truque que vi uma vez num programa do Jamie Oliver e enrolei a massa polvilhada com açúcar e canela. Uma delícia. Tenho de trazer de Portugal formas próprias para Pastéis de Nata, lembrem-me!

Ingredientes: (12 pastéis de nata)

Preparação:

Aqueçam o forno a 240ºC.

Preparem o recheio seguindo as indicações da Vânia.

Estiquem a massa folhada. Polvilhem a massa com açúcar e canela e enrolem-na como se fosse uma torta. Cortem a massa em fatias e forrem com elas as forminhas, atenção que a massa deve ficar bem fininha. Encham até 2/3 com o recheio. Levem ao forno até a massa folhar e  recheio estar douradinho.

Convidei para lanchar – Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre

O som dos cascos dos cavalos anunciam a chegada da sua carruagem. Pela janela vejo-a trocar algumas palavras com a sua dama de companhia antes de se dirigir ao meu apartamento. Alcipe – A  Marquesa de Alorna vem lanchar comigo.

Somos amigas há décadas, e embora eu seja uma assumida republicana, D. Leonor é uma das figuras da nossa História que mais admiro e é ela a minha convidada deste mês do Convidei para Jantar que decorre em casa da Alice e tem como tema Aristocratas.

Fiel ao seu tempo, continua a preferir a sua carruagem a um carro, os pesados e elaborados vestidos e perucas ao estilo dos nossos dias.

Sentamo-nos para chá e duchaises.  - Muito a propósito -  diz-me enquanto olha curiosa para os bolinhos que lhe sirvo.

- Para a próxima preparo uma marquise!

Conversamos acerca  dos anos que passou em Chelas, das saudades que tem dos doces que ajudava as freiras a preparar.  – Nunca mais comi um Manjar branco tão bom, tu qualquer dia podias procurar a receita nesse livro com botões onde guardas tudo…pode ser?

Esquece-se por vezes dos bolos e do chá, perde-se em cenários e locais onde viveu, relembra Paris e Viena, fala-me com entusiasmo dos seus quadros, de poesia, dos seus autores favoritos.

Como habitualmente os meus gatos dormem escondidos debaixo das suas saias, uma tendinha improvisada sem a qual não passam cada vez que a tia Leonor nos visita.

-Gostava tanto de ter um vestido como os teus – admito.

- E eu de usar calças e botas em vez destes corpetes e perucas pesadíssimas!

Como cúmplices, dirigimo-nos ao meu quarto. Abro o guarda fatos para que possa escolher entre as minhas roupas algo que queira experimentar.

- Em termos de  cor não há grande opção!  – Sorri enquanto vasculha o meu monocromático armário.

Ajudo-a a trocar de roupa. Olha para o espelho com espanto e quase admiração: -  Gosto destas calças, que confortáveis são… achas que posso mesmo sair para a rua assim?

Despedimo-nos com um abraço. Leonor promete voltar brevemente, quer ir às compras. A ideia de que hoje em dia não precisamos de costureiras nem de encomendar as nossas roupas agradou-lhe mais do que eu tinha imaginado.

Tem pressa, vai hoje jantar com a sua amiga Margarida.  – Que surpresa vai ter quando me vir sem peruca!

Acena-me ao entrar na sua carruagem. Eu volto ao quarto. Olho o vestido esquecido sobre a cama. Coloco-o à minha frente, imagino-me a rodopiar num grande salão de baile, uma princesa num conto de fadas. Oiço  música, mas é o meu telemóvel que toca. Do outro lado  da linha  o viking convida-me para um passeio pela cidade e um café para aproveitarmos as poucas tardes com luz que nos restam antes da chegada do Inverno.

Cuidadosamente penduro o vestido de Leonor no guarda-fatos, calço as botas e saio ao encontro do meu príncipe.

Duchaises com frutos silvestres

Ingredientes

Para a massa de choux:

  • 90  ml de água
  • 40  gramas de manteiga ou margarina
  • 1 pitada de sal
  • 1 uma colher de chá cheia de açúcar
  • 60 gramas de farinha de trigo
  • 2 ovos grandes

Para servir:

Para rechear:

  • chantilly

Preparação:

Aqueçam o forno a 220ºC.

Forrem um  tabuleiro com papel vegetal.

Num tacho deitem a água, a manteiga, o sal e o açúcar. Aqueçam em lume médio até levantar fervura.

Quando estiver a ferver retirem do lume e rapidamente juntem a farinha peneirada, mexam bem. Voltem a colocar a massa ao lume, mexendo sempre, até que a massa comece a secar e se descole do fundo e paredes do tacho.

Passem a massa para uma tigela e batam-na durante mais ou menos um minuto para que arrefeça um pouco.

Incorporem os ovos, um de cada vez, batendo bem entre cada adição. Com o primeiro ovo a massa vai parecer talhada, não se preocupem,  continuem a bater. Eu uso a batedeira porque é realmente muito mais fácil, mas podem bater a massa com uma colher de pau.

Assim que a massa estiver pronta,  vão ter de trabalhar rapidamente. Para fazer as duchaises podem usar um saco de pasteleiro, ou simplesmente ir colocando colheres de massa no tabuleiro dando-lhes a forma desejada.

Esta massa cresce imenso, tomem atenção ao espaço entre as duchaises no tabuleiro.

Coloquem o tabuleiros no forno (220◦C ) até as duchaisses terem crescido e ganharem uma cor dourada. (8 a 10 minutos). Muita atenção que neste período não podem abrir a porta do forno, ou  os bolos desmaiam e ficam achatados.

Baixem a temperatura para 180◦C e continuem a cozedura durante mais 10 a 15 minutos até as duchaoses   estarem secas. O resultado final deve ser um bolo muito leve e oco por dentro.

Depois de frias recheiem as duchaises com chantilly e decorem  com Creme de Pasteleiro e frutos silvestres.

A escola

Como prometido aqui fica o primeiro de alguns posts e fotografias sobre o  meu curso e escola. Durante a semana os nossos dias começam cedo. Às sete saímos de casa. Da nossa porta ao escritório do viking é um passeio de quinze minutos, eu continuo mais dez para chegar à escola. Aqui estudo eu. Para além de cursos profissionais para adultos, a escola funciona também como uma escola secundária com cursos semelhantes ao antigo técnico-profissional. No total somos 1300 alunos, a escola ocupa um quarteirão e tem seis pisos.

É uma escola realmente interessante. Há lojas onde os alunos que estudam cursos de florista ou moda podem vender os seus produtos, um cabeleireiro, um take away, uma pastelaria, dois restaurantes abertos ao público, e mais duas cantinas só para alunos e pessoal da escola.

No meu curso temos aulas todos os dias das oito às quatro. Às terças, quintas e sextas feiras estamos na  cozinha dos restaurantes da escola, nos restantes dias temos aulas teóricas. As cozinhas ligadas aos restaurantes são enormes!

Nas cozinhas estamos organizados em estações e trabalhamos com a nossa professora Christine, o chefe da cozinha quente, e a chefe da cozinha fria.

A cozinha fria

A cozinha quente (que na realidade é muito maior do que parece aqui.)

 

Vista das bancadas de trabalho na cozinha quente

Aqui fazemos também o pão que se consome no restaurante. (Na grande padaria da escola trabalham os alunos do curso de Padaria/pastelaria e é ai que se fazem os bolos, e todos o tipo de pães que se vendem na pastelaria.)

Assim que começámos as aulas práticas, a minha professora, sabendo do meu gosto pela padaria, enviou-me sozinha para esta estação. Eu estava no céu e determinada a impressionar. Munida de receitas e ingredientes, perguntei a um dos professores como se utilizava a máquina amassadeira, e fechei-me na padaria.

A mini bageri num cantinho da cozinha fria

 

Aqui podia eu viver ;)

Enquanto a primeira massa era amassada, virei-me de costas para ler a segunda receita. De repente ouvi um ruido estranho e virei-me mesmo a tempo de ver a grande tigela sair do suporte, voar pela padaria e aterrar, massa para baixo, no chão. Uma estreia em cheio! O resto da semana correu felizmente bem  melhor! E no último dia na estação fiz uns deliciosos pães com sourdough usando o meu starter e a  minha receita. Foi um sucesso e até já traduzi a receita para os professores.

A maquineta que me levou às lágrimas no primeiro dia.

 

Sucesso! Os meus primeiros pãezinhos com sourdough seguindo a minha receita!

Há umas semanas a escola recebeu uma encomenda de setecentos canapés. Eu fui uma dos quatro alunos responsáveis pelo serviço. Trabalhámos três dias, e tivemos também oportunidade de estar no local onde os canapés foram servidos e falar um pouco do nosso curso. O meu canapé favorito, crostini com queijo brie e compota de abóbora e cardamomo, despareceu num abrir e fechar de olhos. Eu já repeti a receita da compota em casa, talvez amanhã tenha tempo de tirar algumas fotografias para a partilhar convosco.

A contar crostini em sueco para praticar =D

 

O maravilhoso doce de abóbora

 

Os nossos canapés

Não imaginam a correria dos meus dias, depois das aulas ainda venho para casa estudar. Até agora não tenho tido dificuldades com os aspectos práticos. Mas há imenso vocabulário ligado às cozinhas comerciais que tenho de aprender em sueco. O viking diz que durante a semana eu funciono a adrenalina, e é verdade. Durmo pouco, como pouco, estou na escola, ou a repetir receitas em casa, ou a estudar. Gostava de ser mais descontraída, menos obcecada com o curso, com aprender, com ser perfeita,  com fazer tudo correctamente, saber as respostas antes de ouvir as questões dos professores, mas quem nasce rato de biblioteca, tarde ou nunca se endireita.

Durante a próxima semana a minha turma vai gerir sozinha os dois restaurantes que servem clientes, o viking marcou mesa para ele e uns colegas para o almoço de sexta-feira. Daqui a duas semanas começo um período de estágio num restaurante no centro de Malmö. E tanto ainda para estudar….

Aos fins-de-semana por muito que tente, não consigo abrandar  o passo e com muita pena minha, acaba por ser a Padaria  a sofrer. Já pensei em fechar a opção dos comentários porque a verdade é que eu, embora continue a seguir os vossos blogues no Google reader  quase todas as noites antes de me deitar, simplesmente não tenho tempo nem força suficiente para vos deixar uma mensagem.

Hoje é domingo, sentei-me agora frente ao computador, são quatro e meia da tarde, até fazer o upload deste post e acrescentar as fotografias são horas de jantar. O viking pediu fondant de chocolate para a sobremesa. Tenho de me apressar!

Obrigada por me acompanharem nesta viagem, e não se esqueçam do Convidei para Jantar que está este mês muito elegantemente instalado em casa da nossa Alice!

Até breve ;)