Archive for ‘Convidei para jantar’

May 12, 2013

Quase Convidei para Jantar no restaurante dos meus sonnhos

by ana

O CpJ deste mês decorre em casa da Manuela e tem como tema restaurantes de sonho

O Restaurante dos meus sonhos serve comida que respeita a natureza, as estações e a forma como a comida é produzida e chega às nossas mesas. A decoração é simples, posters antigos, uma colecção de pequenos fogões de ferro forjado, aviões e moinhos de café e pimenta. Há quadros e livros de culinária. Através das paredes de vidro vemos um pequeno porto, a ponte que nos liga à Dinamarca. Todos os produtos usados neste restaurante, das velas das mesas aos tapetes, das lâmpadas e papel às mesas e cadeiras, respeitam o ambiente.

A cozinha é semi aberta para a grande sala de jantar que abre todos os dias (expecto Domingo, dia sagrado para o descanso do pessoal) para o serviço de almoço e jantar. Os menus são magníficos, testados, apontados, tiram-se fotos sobre a melhor forma de colocar cada elemento no prato, fazem-se alterações constantes para melhorar a qualidade e apresentação de entradas pratos principais e sobremesas.

Neste restaurante nada se compra pré fabricado. Aqui não há frascos de maionese nem de pickles. No frigorífico dos legumes há grandes frascos de conservas de legumes, o pão com sourdough prepara-se duas vezes por dia na pequena padaria do restaurante. Todas as refeições se iniciam quase como em Portugal com uma tacinha de manteiga e pão quentinho sobre a mesa.

Às onze da manhã assim que está pronta a primeira fornada de pão, põe-se a mesa para o pequeno almoço do pessoal. O menu é de novo lido e cada detalhe explicado aos empregados da sala de jantar, acertam-se os últimos pormenores. Quantas mesas marcadas? Nesse grupo servimos vegetarianos? Vegans?  Quantos intolerantes à lactose? Usaste farinha de batata? Há glúten no molho?

Abrem-se as portas. O dono do restaurante  é um apaixonado por Portugal e quase todos os dias  escolhe cds da Amália ou dos Madredeus como música ambiente durante as refeições.

O som da pequena impressora anuncia a chegada dos primeiros pedidos à cozinha. “Dois gaspachos com gelado de manjericão, três patés em espera, quatro arenques fråm.” ja tack, ja tack ja tack.

Salt och Brygga um dos melhores restaurantes Eko da Suécia,  é o restaurante dos  meus sonhos, e a realidade de Björn Stenbeck, um defensor da boa comida, do ambiente, e um ciclista ferranho que já pedalou de Malmö a Lisboa.

Na cozinha trabalham três cozinheiros e o chef de cozinha, e uma estagiária –

eu.

 O primeiro serviço de jantar com o Tobias nas sobremesas

O primeiro serviço de jantar com o Tobias nas sobremesas

Cheguei há três semanas convencida que, como todos os estagiários ia passar oito horas por dia a preparar legumes, e fazer todas as tarefas que são consideradas mais aborrecidas na cozinha. Estava enganada!

Todo o pão é feito por mim, levei de casa uma caixinha com o meu starter que começámos a usar alternado com o do restaurante. Posso testar receitas, fazer sugestões, contribuir com ideias…

Milos em controlo do seu domínio, a cozinha quente

Milos em controlo do seu domínio, a cozinha quente

Cada elemento das sobremesas é pré preparado por mim. Pelas minha mãos passam diariamente quase uma centena de ovos, litros de natas, pacotes e pacotes do melhor chocolate. Os homens da cozinha, que preferem os facalhões e o calor do fogão, parecem felizes com alguém que goste de passar seis horas a fazer gelados, e de servir as sobremesas, e eu agradeço.

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Feitas as sobremesas e as entradas, (algumas com carne como o paté com fígados de galinha, não são tão divertidas de fazer,  admito) passo a ajudar na cozinha quente. A regra de ouro nas cozinhas parece ser que estagiários não tocam em proteínas, mas eu tive sorte e em especial o chef de cozinha que é o  meu orientador confia peixe e carne nas minhas mãos. Há muito pouco que os cozinheiros fazem que eu não tenho tido a oportunidade de fazer.

 restar a apresentação de uma entrada

restar a apresentação de uma entrada

Acidentes já houve. Uma vez estava eu a “olear” as formas de baguete com um spray e comentei com eles, “ é por isso que eu detesto este tipo de sprays, que mau cheiro… isto até faz mal ao estômago….”

Um dos cozinheiros também estranhou o cheiro e veio ver, alguém tinha deixado uma lata de um spray para limpar metais na padaria. Metade das baguetes foram para o lixo, as formas estão a brilhar.

Na terça-feira à tarde comecei a sentir uma enorme dor no peito e dificuldade a respirar. Eu não sou choramingas, mas não conseguia fazer nada na cozinha, telefonei ao viking e fui para o hospital. Notem que eu sou o tipo de pessoa que em caso de risco de vida toma duas aspirinas, portanto imaginem o estado em que eu estava para entrar no carro e dizer “ leva-me já para o hospital”. Aparentemente magoei uma costela o que provoca dores a respirar e movimentar o meu braço esquerdo. O médico recomendou cinco dias em casa, mas como me deu uns medicamentos bastante fortes para as dores, no dia seguinte às oito da manhã já estava de novo na cozinha.

Ontem durante o serviço de jantar servimos também um buffet para 21 pessoas pelo qual eu fui responsável. (As sobremesas ainda não estão prontas a servir)

Ontem durante o serviço de jantar servimos também um buffet para 21 pessoas pelo qual eu fui responsável. (As sobremesas ainda não estão prontas a servir)

Tem sido uma semana mais difícil porque vejo que eles estão preocupados com o que eu posso e não posso fazer, e eu tenho de pedir muitas vezes ajuda porque não consigo carregar nada mais pesadote. Eles insistem para eu ir para casa eu digo que estou óptima.

Na cozinha o tempo passa a correr e as oito horas diárias são sempre poucas para mim. Trabalho seis dias por semana, dez a doze horas por dia, por vezes catorze.

Temo o dia em que o sonho que tem sido este estágio termine, eu volto à escola, Amália continua a acompanhar as refeições, as minhas receitas e o meu starter ficam no restaurante.

Hoje não há receita, mas vou pedir autorização ao Tobias, o meu chef de cozinha para colocar aqui algumas receitas dele e do restaurante quando terminar o meu estágio.

As fotografias bonitas são do site do restaurante, as menos bonitas foram tiradas com o telemovel na correria da cozinha, talvez esta semana tenha tempo para fotografar melhor as nossas actividades.

Um abraço a todos e até breve.

April 15, 2013

Convidei para jantar – Dois pintores

by ana

Este mês por pouco não se sentavam convidados à minha mesa, mas cá estão eles: Giuseppe Arcimbold

o e H.R. Giger,  à primeira vista a mais estranha das combinações, e a minha participação do CpJ que decorre em casa da Guida.

Enquanto preparo o nosso petisco, brincam com vegetais da mesa da cozinha, e das suas mãos sai um pequeno Alien feito ao estilo de Arcimboldo. Encantador, não acham?

O petisco segue o tema dos vegetais, pataniscas de milho e cenouras, uma delícia que acompanhamos com cerveja belga, pois claro, e uma leve maionese de leite e coentros.

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Pataniscas de milho e cenoura

Ingredientes:

  • 120 g de farinha
  • 1/2 cdc de fermento em pó
  • 2 ovos
  • 1/2 dl de leite
  • sal e pimenta
  • 1 chili picadinho
  • 1 raminho de coentros picados
  • 200 gramas de cenouras raladas
  • 150 gramas de milho
  • óleo para fritar

Preparação:

Nada mais simples. Misturem rapidamente todos os ingredientes e fritem as pataniscas num pouco de óleo. (Não é preciso fritar estilo batatas, um fiozinho de óleo no fundo da frigideira para ajudar na cor e no estaladiço das pataniscas é o suficiente.

Fotos: http://www.riccart.com/english/Giuseppe-Arcimboldo.htm

mais sobre Giger – http://www.hrgiger.com/frame.htm

O pequeno alien é uma obra de Till Nowak e chama-se “Salad. Vejam mais aqui: http://www.framebox.com/

 

March 14, 2013

Convidei para Jantar …um poema

by ana

O CpJ decorre este mês em casa da Cristina que nos desafiou a convidar para nossas casas um poema.

Escolhi Caranguejola de Mário de Sá Carneiro. Oferereço-lhe não bolos  de ovos e uma garrafa de Madeira mas nozes,  o bolo que me lembro ter comido há muitos anos depois de ter visto Conversa Acabada na Cinemateca. As nozes, que de facto são feitas de amêndoas,  são um dos meus  bolinhos favoritos, recordo-me de que as nozes da antiga Lua de Mel eram uma delícia. O ritual mantem-se o mesmo: uma noz doce e estaladiça, um café cheio sem açúcar.

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Caranguejola
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!DSC_0544

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

                                                                                       Paris - Novembro 1915

A receita que usei é a da Vaqueiro, meia receita rendeu para 10 nozes, quase o suficiente para apaziguar a minha gula. Como sempre quando faço nozes o recheio passado algum tempo começa a amolecer, será do calor do caramelo?

November 25, 2012

Convidei para jantar – Paris

by ana

A nona edição do Convidei para Jantar decorre este mês em casa da Marmita que nos desafiou a convidar uma cidade ou país para jantar. Eu, de maleta aviada, meti-me num avião e fiz me convidada de Paris.

Enquanto a cidade ainda dormia, passei algumas horas no restaurante onde mais tarde sabia iriamos   jantar. Queria preparar-lhe uma surpresa.

Encontramo-nos cedinho à entrada do seu apartamento. Paris vive numas águas furtadas na Rue de Rivoli,  com vista para o Louvre, a dois passos da muito chic Rue Royale, um salto até ao Palais Garnier.

Imaginava-a uma senhora clássica e reservada, bem penteada e num fato chanel. A Paris que vejo sair do elevador é surpreendentemente diferente, não soubesse eu que Amélie continua feliz em Montmartre e juraria que se trata da mesma pessoa.

Cumprimenta-me como se fossemos velhas amigas e saímos para croissants e café enquanto planeamos o nosso dia com mais detalhe. Quer mostrar-me/se no seu melhor. Com Paris não há filas intermináveis à entrada dos monumentos, pedintes nem restaurantes e lojas de recordações para turistas.

Passamos a manhã entre Gárgulas e Quimeras. Conta-me que mais tarde, e com a Notre Dame já encerrada, gosta de voltar a visitar estes seus amigos de pedra que ganham vida durante a noite e com os quais gosta de se observar. Obras numa antiga igreja, um novo centro comercial, a restauração de uma ponte.

Visitamos de seguida a Sainte-Chapelle, um tesouro onde nos perdemos durante horas. Passamos a tarde em Montmatre e Pigalle, tomamos café com Marcel Aymé, Amélie chega mais tarde, teve de esperar que o seu bebé acordasse da sesta.

Para o jantar Paris tinha já reservado a sua mesa habitual no Les Deux Magots. Todos se alegram com a sua chegada, Sartre e Simone de Beauvoir esperam já por nós. À nossa mesa chegam imediatamente os aperitivos e Champagne, o Chef vem cumprimentar-nos e sugerir um menu especial para o nosso jantar.

Depois do jantar é a minha vez de surpreender Paris e com o café são servidos os Pastéis de Nata que horas antes tinha preparado no restaurante e que a todos deliciam. “Deixaste a receita com o Chef?”  – pergunta-me.

Despedimo-nos na entrada do metro. Eu estou cansada e quero dormir um pouco antes de regressar a casa. Para Paris a noite ainda está a começar. “Vou passar por Notre Dame, para partilhar estes bolinhos com as Quimeras” – diz-me enquanto olha sorridente para a caixa de pastéis de nata que trouxe ainda quentes do restaurante.

Pastéis de Nata

Para este clássico que em Paris se vende até no KFC, usei a receita do maravilhoso Sabores da Alma, mas admito que fiz batota e usei massa folhada congelada. Uma vergonha…bem sei. Para disfarçar a coisa usei um truque que vi uma vez num programa do Jamie Oliver e enrolei a massa polvilhada com açúcar e canela. Uma delícia. Tenho de trazer de Portugal formas próprias para Pastéis de Nata, lembrem-me!

Ingredientes: (12 pastéis de nata)

Preparação:

Aqueçam o forno a 240ºC.

Preparem o recheio seguindo as indicações da Vânia.

Estiquem a massa folhada. Polvilhem a massa com açúcar e canela e enrolem-na como se fosse uma torta. Cortem a massa em fatias e forrem com elas as forminhas, atenção que a massa deve ficar bem fininha. Encham até 2/3 com o recheio. Levem ao forno até a massa folhar e  recheio estar douradinho.