More soup for you!

Borscht e ataques ao frigorífico

Já com a segunda edição quase a fechar as portas e eu ainda com um convidado para receber, lembrei-me que tinha  por publicar parte do jantar do mês passado como Lestat.

Borscht é uma sopa tradicional de vários países europeus e tem como principal ingrediente a beterraba. Escolhi-a para o jantar com Lestat não só pela sua cor como por ser um prato típico também da Roménia onde se chama Bors. Desta sopa existem versões quentes e frias, com carne, peixe ou apenas legumes.

Adoro beterrabas, assadas com um pouco de queijo de cabra e umas nozes, cozidas e feitas em saladas com muito azeite e vinagre, em sopas e até em conserva. Num ataque de fome, quando abrimos o frigorífico com a mão direita, e com a esquerda acariciamos o estômago como que a perguntar-lhe o que lhe apetece, são as beterrabas que imediatamente me tentam.

Tenho, e é com vergonha que vos  admito, o péssimo hábito de comer beterrabas em conserva directamente do frasco. Penso que é a combinação entre o sabor tão suave e doce da beterraba com líquido dos pickles ácido e muito salgado, que me faz a perder a cabeça (e as boas maneiras). Os pepinos de conserva por aqui também não duram muito, porque eu os como à dentada, com a mesma vontade e gula de quem devora uma peça de fruta madurinha. Será isto estranho? Quando fazem um raid ao frigorífico, quais são as vossas primeiras vítimas?

A minha receita  de Borscht tenta combinar essa acidez de que tanto gosto, com o conforto de uma sopa quentinha e tentadoramente bela   que acompanhada de um  pouco de pão com manteiga de alho e endro, faz um jantar perfeito. Se puderem assar os legumes antes de preparem a sopa, tanto melhor.

Ingredientes: (para um viking, um vampiro e uma padeira)

  • 2 beterrabas
  • 1 cenoura
  • 1 cebola roxa
  • 1 courgette
  • ½ bolbo de funcho, com as folhinhas e tudo, ou um raminho de endro
  • Sal e pimenta
  • Água ou caldo de legumes
  • Azeite
  • 1 beterraba em conserva
  • Um pouco de vinagre ou do líquido das beterrabas de conserva
  • Sourcream
  • Endro ou umas folhinhas de funcho para decorar

Preparação:

Se não assaram os legumes, limpem-nos e cortem-nos em pedacinhos (expecto o endro se os estiverem a usar). Coloquem-nos numa panela com um pouco de azeite, temperem com sal e pimenta e refoguem-nos muito levemente. Acrescentem a água a ferver e o endro, cozinhem até os legumes estarem tenros. Antes de passar a sopa na varinha mágica, juntem a beterraba de conserva. Ao puré acrescentem vinagre ou um  pouco de líquido da conserva de beterrabas se quiserem dar-lhe um toque ácido. Decorem com sourcream ou um pouco de iogurte, endro, e sirvam.

Sopa Invejosa

Crescemos a pensar que é feio ser-se invejoso, que querer ser o ter as coisas dos outros é um sentimento mesquinho e deve ser a todo o custo evitado, ou pelo menos escondido. Eu, deixem-me que vos diga, sou uma invejosa do pior. Benzam-se e façam figas, peçam aos entendidos que vos tirem o “quebranto” e vos protejam, porque da inveja que eu tenho de receitas como a desta sopa da Carla, não escapam.

A mim a inveja não paralisa nem aflige, não fico a  ranger os dentes de raiva, nem faço o papel de fingida indiferença da raposa. Vejo a inveja como algo positivo  que me impulsiona e  leva a desenhar de imediato um plano para atingir novos objectivos. Acho que a vizinha da frente perdeu peso e eu ainda não larguei o quilo que trouxe de Portugal? É  comer menos e passar mais horas na passadeira. Quero a sopinha da Carla?  Basta levantar-me e ir para a cozinha.

 Foi o que fiz, infelizmente não com os resultados desejados. Serviu-me a experiência para pelo menos aprender que durante um ataque de inveja se deve:

- Ler bem as receitas e ver se temos todos os ingredientes em casa.

- Evitar brincar com facas acabadas de afiar

-Não tocar em electrodomésticos

Por não ter os ingredientes para fazer a sopa da Carla, e porque apesar de tudo o resultado final é tão saboroso, decidi publicar esta receita que, se compararem, já nada tem a ver com Creme de Lentilhas e Laranja. As lentilhas que uso cozem em 10 a 15 minutos e não precisam de ser colocadas de molho. São muitíssimo saborosas e consideravelmente mais simples de se preparar.

Ingredientes:

  • ½ courgette
  • 1 cenoura
  • 1 dl de lentilhas cor de laranja
  • 1 cebola roxa
  • 1 couve flor pequena
  • Sal e pimenta
  • 1 colher de chá de garam-masala
  • 2 cm de chili fresco picado
  • 3 colheres de sopa de azeite
  • Sumo e raspa da casca de 1 limão
  • Vestígios de sangue humano (facultativo)

Preparação:

Se optaram pela versão com vestígios de sangue, comecem por afiar a vossa faca de chef e aproveitem para praticar cortes de legumes enquanto sonham com a sopa que viram num blogue amigo.

Depois de cortarem os legumes e um ou dois dedos, limpem os segundos, coloquem pensos rápidos e calcem luvas. Lavem bem os legumes e coloquem-nos numa panela (excepto meia couve flor e o chili) com o azeite, o sal, a pimenta e o garam masala. Levem ao lume até os legumes estarem tenros.

Entretanto coloquem a restante couve-flor cortada em fatias fininhas num tabuleiro, salpiquem com sal e umas gotas de azeite e coloquem no forno a 150ºC.

 Aos legumes acrescentem aproximadamente 8 dl de água a ferver e 1dl de lentilhas. Deixem cozer em lume brando.

Passem a sopa usando a varinha mágica, ou se a vossa também decidir deixar de trabalhar nessa altura, usem o copo misturador.

Antes de servir misturem o sumo e a raspa do limão, e decorem com o chili fresco picadinho e couve-flor assada.

Ärtsoppa & Pannkakor – O menu de quinta-feira na Suécia

(Só uma nota para vos pedir desculpa pelo atraso na resposta aos vossos e-mails e comentários, estou a tentar colocar a escrita em dia o mais rapidamente possível.)

… e a minha versão de sopa de ervilhas e crepes Suzette

A tradição de às quintas-feiras se comer sopa de ervilhas e crepes, tem origem no período de domínio católico no país. Para enfrentar os horrores do obrigatório dia de jejum de sexta-feira, os suecos costumavam  no dia anterior forrar o estômago com uma refeição mais forte e saborosa: sopa de ervilhas acompanhada de carne e para sobremesa crepes com doce.

Por ser um prato tão apreciado, o costume manteve-se mesmo depois da Reforma e ainda hoje  muitas escolas, famílias e até as forças armadas servem Ärtsoppa & Pannkakor às quintas-feiras.

A torsdagsmat (torsdag  ”dia de Tor” – quinta-feira +mat- comida) não é apreciada pelo viking, e depois de ter visto a verdadeira sopa de ervilhas suecas, não o censuro. O prato é feito com ervilhas amarelas, e é geralmente acompanhado por um naco de carne, estilo entremeada cozida. Acreditem, é uma imagem de horror! (Especialmente a que se vende em tubos, vejam.) Eu estou até convencida que a lenda da morte do Rei Erik  XIV em 1577,aparentemente depois de ter comido um prato de sopa de ervilhas envenenado, deve ter tido origem no aspecto terrível do mesmo.

Esta é a minha versão desta refeição e a forma  de seguir a tradição também em nossa casa: Sopa de ervilhas verdinhas e quase doces com sourcream e pedacinhos de bacon estaladiços e, em vez das tradicionais pannkakor e doce de lingon, crepes Suzette.

Para a sopa de Ervilhas:

Ingredientes:

  • 1 cebola pequena picada
  • ½ talo de funcho em pedacinhos
  • 1 nabo ou dois talos de salsify
  • ½ courgette
  • 3 dl de ervilhas congeladas (não sei quanto pesa, usei uma medida de decilitro.)
  • 3 colheres de sopa de azeite
  • Sal e pimenta
  • 8 dl de água (aproximadamente)

Para servir:

  • Sourcream, iogurte grego ou creme fraiche
  • Bacon

Preparação:

Refoguem levemente a cebola com o azeite, o funcho, a courgette e o nabo ou salsify. Quando estiverem macios acrescentem a água, temperem e quanto levantar fervura adicionem as ervilhas.

Cozam  só  até as ervilhas estarem tenras (ervilhas demasiado cozidas perdem a cor e  ficam feias).

Triturem o preparado com a varinha mágica e, se gosta de sopas muito cremosas, passem-na por um passador de rede fina.

Decorem com pedacinhos de bacon e sourcream e sirvam.

Crepes Suzette

Esta é a versão simplificada da tradicional sobremesa francesa e que também graças ao Masterchef Australia voltou a estar na moda. Usei a minha receita de crepes que podem ver com um antigo passo-a-passo aqui, mas podem claro usar a vossa própria receita ou até crepes comprados.

O molho foi adaptado da receita do Masterchef Australia

Ingredientes:

  • 4 crepes

Para o molho:

  • Sumo e raspa de três laranjas grandes
  • 6 colheres de sopa de açúcar (rasas!)
  • 30 gramas de manteiga
  • 6 colheres de sopa de licor de laranja (Grand Marnier, Cointreau…)

Preparação:

Preparem e reservem os crepes, ou tirem-nos do pacote.

Misturem a raspa da casca das laranjas com o  açúcar. Esfreguem o açúcar entre os dedos ou usem o almofariz ou processador de alimentos. (Este processo é importante porque ajuda a libertar os aromas que estão escondidos na casca das laranjas.)

Numa frigideira aqueçam o açúcar até que este ganhe um tom dourado. Aos poucos, porque vai ferver, trabalhem com cuidado, acrescentem o sumo de laranja. Esperem que o açúcar esteja dissolvido antes de adicionar a manteiga. Um a um banhem os crepes neste molho dobrando-os em quatro e empurrando-os para um canto da frigideira. Têm de ser rápidos e trabalhar em lume baixo para evitar que o açúcar ganhe ponto e se transforme em caramelo.

Reguem com o licor e com muito cuidado flamejem os crepes, sirvam imediatamente.

Sopa de nabo sueco e problemas de expressão

Depois de sete anos a viver fora de Portugal começo a notar os primeiros problemas de expressão. Raramente me esqueço de como se escreve uma palavra, mas a minha escolha de vocabulário, expressões que uso, e principalmente a sintaxe, tanto da minha expressão escrita como oral, denotam já sinais de múltipla personalidade.

Quanto mais tempo passa, mais estranhas me parecem algumas palavras em português. A confusão piora quando quero usar palavras que aprendi em sueco ou inglês e que, embora tenham tradução na nossa língua, me soam estranhas. Sei que se diz “pecãs” e  “arando-vermelho”, mas acabo sempre, e admito que por teimosia, a escrever “pecan nuts” e “lingon” Há uns tempos começou a chamar-se à “butternut squash” abóbora manteiga, uma tradução que não consigo entender e que me leva a continuar a escrever, à falta de melhor, “abóbora butternut”.

Estes problemas de tradução voltaram a atormentar-me na receita e no post dehoje.

Com o frio e a escuridão entramos também na época dos “root vegetables” (tubérculos?). Esta é a altura das cenouras, nabos, beterrabas (vejam esta receita fantástica da Pammy  que está na Islândia), e do famoso Kålrot.

O kålrot  é um tubérculo, originário da Suécia e que surgiu do cruzamento entre a couve e o nabo. Tem um tom bastante mais amarelo do que o nabo vulgar, que eu detesto, e é muito popular e saudável entre os suecos, que nesta época o consomem assado, em sopa ou purés. O sabor é, comparado com o nabo vulgar, menos agressivo e mais doce e leve.

Em inglês a este legume chama-se “Swede” ou “yellow turnip”, e como não encontro tradução para português, penso que “nabo sueco” será uma boa opção. O que acham?

Para vos apresentar a este ingrediente, fiz uma sopa de Inverno, inspirada em sabores e aromas “Earthy” (?). Nabo sueco, cenouras, cominhos, funcho e uns cubinhos de fiambre fumado para servir com esta deliciosa sopa que por si só é uma refeição saudável e muito completa.

Ingredientes:

  • 1 nabo sueco ( ou 1 nabo português)
  • 1 couve-flor pequena
  • 1 talo de funcho
  • 1 cebola pequena
  • 1 cenoura média
  • Sal e pimenta
  • Cominhos
  • Fiambre fumado em fatias grossas
  • azeite
  • Ervas frescas para decorar

Preparação:

Descasquem e cortem em pedacinhos pequenos todos os vegetais. Cozam-nos em água com sal. Quando estiverem quase prontos, retirem alguns cubinhos de nabo e cenouras, escorram-nos e reservem. Terminem de cozinhar os restantes vegetais. Temperem com pimentas e cominhos, acrescentem um fio de azeite e passem a sopa usando um copo misturador ou a varinha mágica.

Numa frigideira coloquem o fiambre cortado em cubinhos e os pedacinhos de cenouras e nabo que reservaram, salpiquem-nos com mais   cominhos e fritem-nos  num pouco de azeite até estarem dourados.

Sirvam a sopa quentinha com o fiambre e vegetais salteados e decorada com um  pouco de ervas aromáticas frescas picadas.