A minha vida na Suécia · livros

Julie&Julia

Nem  de propósito vi ontem um filme, recomendado via skype pelo meu irmão com quem partilho a paixão das experiencias na cozinha. Julie&Julia, o filme não é fantástico, mas Julia Child e Merly Streep na mesma pessoa, é um acontecimento que quem se interessa por filmes e comida não deve perder.

Agora o que me irrita é a personagem/autora/blogger Julie Powell. Primeiro porque é uma parva, depois porque, com a sua ideia peregrino – idiota  de cozinhar 524 receitas em 365 dias, conseguiu transformar a  excitação que quem gosta de cozinhar sente na escolha e preparação de um prato novo, numa maratona típica de uma pessoa que, mais do que gostar de correr, quer chegar à meta.

Eu tinha decidido preparar todas as receitas do livro sueco Sju sorters kakor, e tenciono fazê-lo, mas não me passa pela cabeça fechar-me em casa durante um ano, a enfardar bolacha atrás de bolacha, com o intuito de concluir uma tarefa. Porque não é de facto uma tarefa, não é uma missão, nem uma causa pela qual me vejo obrigada a lutar, é um prazer que me concedo quando tenho o resto de todas as outras coisas que fazem a minha vida arrumadas e me posso dar o  luxo de umas horas passadas sozinha na cozinha.

comida sueca · sju sorters kakor

O grande degelo

Depois do casamento, das férias e do descanso a que teve direito o meu forno provocado pelo início de um novo semestre, volto a abrir os meus livros de receitas e a imaginar uma vida  onde a farinha tomou o lugar da Teoria da Literatura.

Estamos em Março, começou o grande degelo que, espero, derreta a neve do pior Inverno na Suécia dos últimos vinte anos. Para mim, este Inverno foi especialmente difícil, e nem estar à janela do meu quarto enquanto nevava a ver a pastelaria do outro lado da rua, ou o cheiro a pão fresco  que quase todos os dias sinto quando faço o percurso da paragem de autocarro até casa, me animaram.

Em desespero de causa o meu viking ofereceu-me na última semana dois livros com os quais tenho sonhado desde cheguei à Suécia. O primeiro,  Rutiga kokboken é uma actualização  de um antigo livro de receitas que infelizmente deixou de se imprimir e do qual a minha sogra tem ainda um exemplar que adoro folhear quando a visitamos. Propositadamente pergunto à mãe do viking como se faz determinada receita, apenas com o fito de a ver ir buscar o livro.   Com orgulho traz para a mesa da casa de jantar a bíblia da cozinha sueca, grande, de folhas meio castanhas, fotografias talvez dos anos cinquenta a preto e branco, e acima de tudo, cheio de apontamentos feitos à margem das páginas das receitas experimentadas.

O segundo é Sju Sorters Kakor, Sete tipos de bolinhos.

Há uns anos, quando um este livro foi traduzido para o inglês, comprei  vários exemplares que ofereci à família em Portugal, mas durante todo este tempo tinha resistido a comprar um só para mim, em sueco, à séria, com todos os verbos  dos quais ainda desconheço o significado, e cheio de ingredientes que nunca utilizei.

Usando como desculpa a necessidade de melhorar o meu sueco, e ao mesmo tempo de me preparar para o curso de padaria e doçaria que algum dia hei-de tirar, combinei com o viking que vou experimentar, e traduzir para o português, todas  as receitas do livro.