A minha vida na Suécia · A Pastelaria · comida sueca · pão, sourdough

Semlor aos milhões

Se é o primeiro Carnaval que passam na Padaria, leiam por favor este post.

E eis que chega a época das semlor. O bolinho que no tempo da Suécia católica anunciava o último pecado da gula antes do inicio do período da quaresma, tornou-se na gulodice favorita do país entre Natal e a Páscoa. Estima-se que nestes meses sejam consumidos por ano 40 milhões de semlor dos quais 2 milhões apenas na terça-feira gorda.

 Longe vão os tempos do bolinho seco, ou da semla tradicional cheia de doce de amêndoas e coberta por uma nuvem de chantilly. Todos os anos  surgem novos sabores e versões de semlor, e eu já experimentei alguns.

 Para uma festa dedicada apenas a este pãozinho doce ao qual também se chama fastlagsbulle, preparei para além das semlor tradicionais que das quais já partilhei a receita o ano passado, semlor com mirtilos, semlor com chocolate e a minha própria versão do muitíssimo tradicional hetvägg.

 Hoje em dia chamamos hetvägg a semlor que são servidas com leite quente, mas pensa-se que este doce terá origem numa forma alemã de transformar pão duro numa sobremesa mais apetecível juntando-lhe leite.

O hetvägg está também ligado ao Rei Adolf Frederick que no dia de Carnaval de 1771 morreu de indigestão depois de  um jantar de lagosta, caviar, arenque fumado, champanhe e sauerkraut, rematado com catorze (14!!!) doses de hetvägg.

Honestamente não acho grande piada a um bolo a boiar num prato de leite quente, por isso fiz o meu hetvägg  com um batido quente de custard e baunilha.

Podem ler a receita das semlor e das diferentes opções para o recheio tradicional no meu post do ano passado.

Hoje partilho convosco a receita para o recheio de mirtilos e o hetvägg. Fiz as semlor de chocolate com uma massa diferente, pelo que deixo  essa receita para daqui a uns dias  quando publicar a  minha participação no Bread Baking Day.

As semlor que podem ver nas fotografias são bastante mais pequenas do que as que se vendem em pastelarias. (Cada semla saída do meu forno pesa 42 gramas, o tamanho aproximado de uma bola de ténis.)

Estive a pensar como podem fazer semlor e hettvägg com alguma batota, e lembrei-me que talvez possam usar um bolo a que se chama (penso eu) Pão de Deus. Creio que será fácil recheá-los com o creme de mirtilos ou o tradicional creme de amêndoas.

Semlor com Mirtilos

Ingredientes:

  • Para cada 6 semlor (42 gramas) ou 3 semlor de tamanho normal.
  • 1 dl de mirtilos
  • 2 dl de natas batidas em chantilly + icing sugar

 

Preparação:

Depois de cozidas e frias, cortem as semlor e  com um garfo abram um poço em cada uma. Não deitem fora o “chapelinho”!

Triturem os mirtilos com a varinha mágica e passem se assim o desejarem, o preparado por um passador de rede. Misturem com cuidado o puré de mirtilos com o chantilly. Como este creme encham as semlor usando uma colher ou  o saco de pasteleiro. Coloquem o “chapelinho”, polvilhem com icing sugar e guardem no frio até servir.

Hetvägg

Ingredientes:

  • 5 Semlor já recheadas
  • 5 dl de leite
  • 2 dl de creme de pasteleiro (usem esta receita ou façam batota com 2 dl de creme Custarda.)
  • ½ colher de chá de canela
  • Baunilha (a quantidade depende do produto que usarem.)

Preparação:

Escaldem o leite com a baunilha e a canela. Juntem o creme de pasteleiro. Batam o preparado usando a varinha mágica ou um copo misturador. (Muito cuidado para não se queimarem!). Dividam o batido por pratinhos de sopa ou pequenas tigelas. Em cada prato coloquem uma semla, sirvam imediatamente.

Convidei para jantar

Convidei para jantar – Uma mesa cheia e o fim da primeira edição.

 Andava a sonhar com este post, desde que lancei o passatempo Convidei para jantar. A altura de vos mostrar o apanhado de todas as participações, e anunciar o anfitrião para o próximo mês. (Isto vai demorar, o melhor é irem buscar chá ou outros mantimentos antes de começarem a ler.)

Começamos pelo fim. O Convidei para jantar fez as malas, e vai estar até 16 de Março, muitíssimo bem instalado em casa dos Gourmets {Amadores}, recebido pela anfitriã Suzana, a quem mais uma vez agradeço a colaboração num projecto que é ainda tão recente e pequeno. Vejam qual é o tema e como podem participar segunda edição, no blogue da Suzana.

Antes de passar a palavra à Suzana, quero apenas relembrar que este é um passatempo aberto a todos. Neste projecto não há prémios nem vencedores, não há participações mais importantes ou melhores do que outras.

 As vossas participações podem ser escritas na forma que desejarem, com mais ou menos ficção, de acordo com o vosso próprio estilo e voz. Há pessoas para quem a escrita criativa é quase uma necessidade, outros como eu, e admito que por sentir já a perda do domínio da minha língua, lutam em frente ao teclado sem saber como transformar em  texto as ideias que temos. Peço-vos sem qualquer tipo de paternalismos, mas como resposta a algumas mensagens que recebi, que não deixem de participar por acharem que “não sabem escrever”.

Durante este mês, e sempre que houver um anfitrião convidado, a  Anasbageri, funcionará apenas como casa-mãe e organizador do projecto. Como podem ver, criei uma página  (por baixo do cabeçalho) com todas as informações gerais sobre o passatempo, e estou como sempre disponível para falar convosco caso tenham dúvidas ou questões.

Foi uma honra receber-vos em minha casa para esta primeira edição dedicada ao tema Personagens de livros e/ou filmes. E que convidados tivemos! Justiceiros, cozinheiros   e detectives, mulheres fortes e lutadoras, um convidado chic a valer,  gente que gosta de comer e conversar, e  até um vampiro. Personagens de filmes, livros e séries que de alguma forma nos marcaram  e a quem abrimos este mês as nossas casas.

Aqui estão as participações:

Lancei-vos o desafio através do convite que fiz a Lisbeth Salander, a hacker sueca personagem dos livros Millennium do autor Stieg Larsson. Para o jantar servi Pizzas e cerveja belga.

 A Su do blogue Suvelle Cuisine, convidou para jantar Ada McGrath, a pianista do maravilhoso filme de Jane Campion O Piano. Num jantar onde o silêncio das vozes dá lugar ao som do mar e do piano a Su serviu uma levíssima e reconfortante refeição de Ovos Escalfados em Molho de Tomate e Acelgas.

Renée, a aparentemente humilde porteira num prédio em Paris que esconde uma mulher culta e autodidata, foi a  convidada da  Guida e da sua Panela sem (de)pressão. Ao jantar simples e intimista, serviu-se uma deliciosa  e requintada versão de Fish and Chips.

 A nossa Babette convidou talvez a mais mítica de todas as personagens  de obras relacionadas com comida – Babette. Para o jantar a Babette serviu nos pratinhos de sopa da sua bisavó, um abraço na forma de Creme de Aipo com Queijo das Ilhas e Pinhões Tostados.

 Estefânia, de O meu pé de Laranja Lima, foi a convidada que a Cristina recebeu, com  Tarte de Laranja Lima, na sua Confeitaria.

 A Ilídia, convidou o mais chic de todos os convidados. Dâmaso de Os Maias. Para o jantar serviu Francesinhas, perdão, Croque-Monsieur au velouté lusitanien, um prato com tal finesse e categoria que nunca poderia ter sido inventado em Portugal.

 Também dos Açores chegou a participação da Susana. A sua convidada foi Slim do filme Enough. Uma mulher forte e lutadora que se recusa a ser “apenas” mais uma vítima de violência doméstica. O jantar que agradou tanto a Slim que a personagem levou a receita para casa, foi um suculento Rolo de Carne à Wellington.

 Não contentes com apenas um convidado, o viking e eu preparámos pela segunda vez um jantar especial. O convidado foi O Vampiro Lestat. Servimos Sangria com Glóbulos Vermelhos, Borscht e Gelatina de Laranja Sanguínea.

 A minha vizinha Pammy, convidou para a sua casa na Islândia, Micheal Pollan, o autor de livros como Em defesa da comida e O dilema dos Omnívoros. Se são seguidores da máxima “somos o que comemos” este é um autor que têm de conhecer. Para o jantar a Pammy serviu uns “Potezinhos de Nabo”, feitos apenas com produtos locais.

   Sherlock Holmes  foi o convidado da Suzana, que para esta personagem sempre tão atarefada, escolheu um prato que pudesse servir como pequeno-almoço ou brunch, dependendo do tempo e disponibilidade do Mr Holmes: Cogumelos e ovo escalfado em tosta.

 A Carla trouxe da sua infância Clarissa, e entre gargalhadas e conversas de duas velhas amigas preparou para o jantar  um verdinho e apetitoso Creme de Ervilhas, o conforto ideal para uma noite fria.

Amélie e o seu gnomo, foram os convidados da Ginja, que os recebeu para um passeio pela Figueira seguido do jantar alfresco no qual serviu Frango em Vinho e Tomate no forno, simples e delicioso, mesmo ao gosto da sua convidada.

 A casa da Marmita foi jantar Dexter Morgan que se deliciou com   Vieras Assadas, um prato requintado e muito diferente do tipo de “comida” a que está habituado em Miami. (Eu admito que tinha um bocadinho de medo de me sentar à mesa com o Dexter, mas como convidei um vampiro, fico já caladinha.)

 Numa tarde de vento, chegaram a casa da Alice, Vianne Rocher , Anouk e Pantoufle, o canguru. O jantar que evoca também as memórias de infância da anfitriã foi “Arroz de Chocolate”, uma receita especial criada pela mãe da Alice. 🙂

 A Moira convidou Renato Donato do filme “Estômago” e preparou em sua honra, Pastel de Carne. (É nestas alturas que tenho pena do meu marido não falar português, ontem  vi um bocadinho do filme e estou  a adorar)

 A Sofia partiu do Reino da Prússia para paragens mais quentes, e serviu aos Capitães da Areia, um reconfortante Guisado de Lentilhas com Bacon.

 Para um jantar surgido de um convite momentâneo a Mané e o Mel convidaram McMurphy. Uma refeição na qual de forma ligeira se falou de assuntos sérios, acompanhada por um vinho especial, serviu-se uma entrada de Laranja com Presunto e Azeite, Sopa, Coelho com Compota de Frutos Silvestres uma mostarda vinda da Suíça, e para terminar uma Mousse deliciosa.

 A Manuela recebeu a encantadora Miss Marple e preparou-lhe Muffins de Mirtilo e Coco. Um encontro sereno entre velhas amigas com novelos de lã no colo acompanhado por chávenas de chá dos Açores.

Maria João, recebeu Meredith Grey da série Grey´s Anatomy e serviu-lhe a muito portuguesa Açorda de bacalhau e camarão com ovos escalfados. E com esta brilhante participação, uma personagem de quem eu também gosto imenso, fechamos a primeira edição do Convidei para Jantar. Espero encontrar-vos a todas para o mês que vem em casa da Suzana.

candy

Sem corações nem ailavius.

Para os que como eu têm a bênção de todos as noites levar para cozinha duas chávenas de chá vazias, para os que telefonam a dizer que já vão a caminho de casa e  perguntar se faz falta comprar alguma coisa, o dia de amanhã é  muitas vezes um dia como todos os outros. Com o conforto de saber que se tivermos um pesadelo alguém nos acordará, com a certeza de uma voz e presença constantes. Em nossa casa não celebramos o dia de São Valentim, o viking todos os anos compra corações de marzipan que comemos na cama a ver um filme. Não há grandes produções nem jantares românticos, fondue de chocolate ou garrafas de champanhe.

Quando temos quem nos dê a mão, esquecemo-nos com facilidade dos que não tendo a mesma sorte do que nós, passam este dia a ser constantemente relembrados de que estão sozinhos. E não me refiro obviamente apenas a quem ainda não encontrou a sua cara-metade. Se olharem à vossa volta, talvez vejam a colega cujo marido trabalha no Luxemburgo, o amigo que perdeu há pouco tempo  a namorada,  a vizinha a contar os dias para visitar o noivo nos Estados Unidos.

A minha sugestão é que com um pequeno gesto, animem amanhã alguém que saibam estar sozinho. Um presente para um amigo ou conhecido, um abraço feito de chocolate e frutos secos.

Estas barras de chocolate fazem-se em minutos e certamente com ingredientes que têm em casa: chocolate, frutos secos, especiarias, frutos cristalizados, um pouco de licor… Deixo a receita com os ingredientes e quantidades que usei, mas aqui  o limite é mesmo a vossa imaginação. Em vez de chili, talvez pimenta rosa, chocolate escuro com flocos de sal, um pouco de curry em pó, cubinhos de frutos cristalizados..

Como forma usei uma caixa de plástico, mas qualquer outro recipiente serve, umas forminhas de muffin de silicone também são boa ideia.

Se souberem e tiverem tempo aconselho-vos a temperar o chocolate, fica mais duro e brilhante. De outra forma, derretam-no em banho-Maria, ou no micro ondas.

Ingredientes:

  • 200 gramas de chocolate branco
  • 4 cm de chili vermelho fresco em rodelinhas
  • Frutos secos
  • Sementes, frutos cristalizados….

Preparação:

Derretam o chocolate. (Se estão a usar o micro ondas verifiquem a cada 20 segundos. Cuidado para não deixarem queimar o chocolate.)

Aromatizem o chocolate a vosso gosto. Deitem-no na forma e decorem com os ingredientes que escolheram. Coloquem a forma no frigorífico até o chocolate solidificar completamente. Desenformem-no (vai saltar da caixa, não se preocupem), coloquem-no num saquinho ou caixa bonitos e ofereçam-no.

bolos e sobremesas · comida sueca

Ostkaka – Bolo de queijo e amêndoas

O Ostkaka é uma das mais populares sobremesas  suecas. Conhecido desde o sec. XVI,  foi em 2004 oficialmente reconhecido no parlamento sueco como um prato tradicional da Suécia. De todos os ostkakor o mais famoso é  o Småländsk Ostkaka ou Bolo de Queijo da região de Småland. Esta antiga receita parte de uma base de leite coalhado à qual são depois acrescentados os ingredientes deste tipo de bolos: farinha, açúcar, amêndoas e ovos.

A receita de hoje é um versão bem mais simples e moderna na qual substituímos os cinco litros de leite coalhado por queijo cottage. Na minha receita usei massa de amêndoa que podem comprar já preparada em Portugal. Se não encontrarem esta massa podem seguir a receita que vos deixei há muito tempo aqui na Padaria. Podem também substituir a massa de amêndoa por 60 gramas de amêndoas picadas, aumentando nesse caso a quantidade de açúcar para 70 gramas. Como podem ver, não é um bolo doce, e por isso é servido tradicionalmente com doce de morangos ou lingon, gelado ou natas batidas, eu prefiro o meu com iogurte grego.

O cottage cheese é de facto o queijo mais apropriado para esta receita por ser tão baixo em gordura, mas podem também usar requeijão. Para os clientes que não podem comer doces, fiz há um ano uma receita de Ostkaka muito baixa em hidratos de carbono.

 

Ingredientes: (5 ramekins ou 1 bolo médio)

  • 500 gramas de cottage cheese ou requeijão magro
  • 30 gramas de farinha de trigo
  • 3 dl de leite
  • 3 ovos
  • Raspa da casca de 1 limão
  • 1 colher de sopa de açúcar
  • 200 gramas de massa de amêndoa ralada (usem o ralador de cenouras)

Preparação:

Aqueçam o forno a 225ºC.

Untem as vossas forminhas com um pouco de manteiga.

Passem o cottage cheese ou requeijão por um passador de rede fina.

Acrescentem ao queijo a massa de amêndoas, raspa do limão e açúcar.

Numa tigelinha dissolvam a farinha num pouco de leite, acrescentem o restante leite e misturem bem.

Juntem a mistura de leite e farinha ao preparado de queijo. (Para ter a certeza de que não há grumos, passo o leite e a farinha por um passador.)

Misturem todos os ingredientes bem.

Deitem o preparado nas formas e levem ao forno durante aproximadamente 25 minutos para uma forma grande, e 10 a 15 minutos, dependendo do tamanho, para os ramekins.

Sirvam morno ou frio com doce de frutos, gelado, iogurte ou natas batidas.

Embora não seja tradicional na Suécia, uma colherzinha de canela moída acrescentada ao bolo antes de ir ao forno, torna-o ainda mais saboroso.