Ana - cozinheira · De volta à escola · Uncategorized

De memórias mais ou menos felizes e fotografias de outra vida

Agora que tenho um pouco mais de tempo para mim e para organizar a vida fora do restaurante, penso por vezes no meu percurso até aqui.
Penso que nunca vos falei dos detalhes do meu primeiro curso de cozinha. Há na padaria algumas fotografias da escola, e contei-vos muito por alto como os primeiros dias na cozinha correram.
Não sei se conhecem o Blogue Zine de Pão escrito pelo Paulo que vive em Estocolmo, ou se seguem a sua página do facebook. O Paulo tornou pública a sua luta quando decidiu deixar a sua carreira e tornar-se Padeiro.
Eu passei exatamente pelos mesmos problemas. Como temos educação superior é-nos imediatamente vedada a entrada em cursos profissionais equivalentes ao ensino secundário.

A Christine costumava tentar encontrar as receitas mais dificeis para mim. Esta sobremesa  incluia muitas técnicas diferentes, mas eu já a tinha feito num desafio dos Daring Bakers. Next!
A Christine costumava tentar encontrar as receitas mais dificeis para mim. Esta sobremesa incluia muitas técnicas diferentes, mas eu já a tinha feito num desafio dos Daring Bakers. Next!

Após muitos e mails, reclamações, e entrevistas, restaurantes onde trabalhei sem vencimento para ganhar experiência, meses de dúvidas e incerteza, lá consegui um lugar num curso de cozinha.
Este curso decorreu como se lembram numa grande escola secundária profissional onde partilhávamos a cozinha com os estudantes adolescentes.

Passámos uma semana inteira da Padaria da escola. E enquanto os meus colegas usavam bicabornato nas receitas deles em vez de farinha porque "vai ar ao mesmo" eu fiz bisqvit e brinquei com uma banheira de chcolate.
Passámos uma semana inteira da Padaria da escola. E enquanto os meus colegas usavam bicabornato nas receitas deles em vez de farinha porque “vai dar ao mesmo” eu fiz bisqvit e brinquei com uma banheira de chocolate.

Os meus colegas eram uma simpatia, mas na verdade, apenas um ou dois estavam interessados na cozinha ou em trabalhar.

Eram emigrantes de outras culturas, habituados a viver dos subsídios, que tinham sido mais ou menos forçados a fazer este curso. E no meio deles- eu.
Como ninguém dizia mais de meia dúzia de palavras em sueco, informaram-nos no princípio do curso que não podíamos fazer exames de higiene ou culinária e por isso só poderíamos trabalhar como ajudantes de cozinha.

Tenho de colcar esta receita no blogue :)
Tenho de colcar esta receita no blogue 🙂

Reclamei, e lá fiz sozinha alguns exames do curso de chef que depois conclui no meu segundo ano de formação.

Durante todo este tempo que passei na cozinha rodeada de pessoas que nunca tinha pegado numa faca, valeu-me a minha professora Christine, de quem já vos falei, e que fez um currículo só para mim.

Duas das minhas colegas "Ah e tal queriamos tirar um saco para o lixo, mas vieream cem e agora nao sabemos o que fazer" E a minha pobre Christine que passava os dias a rir para nao chorar
Duas das minhas colegas “Ah e tal queriamos tirar um saco para o lixo, mas vieream cem e agora nao sabemos o que fazer” E a minha pobre Christine que passava os dias a rir para nao chorar

Alguns dias foram mais complicados que outros. Eu estava numa grande cozinha e com a Christine a ensinar-me a matar lagostas e abrir vieiras rapidamente, por isso não podia pedir mais.

Mas enquanto os meus colegas passavam quatro horas para em grupo fazer uma panna cotta, eu queria aprender mais e mais.

A semana do marisco, um ingrediente estranho aos meus colegas que se recusaram a tocar num camarão que fosse. Palavras que nunca esquecerei "Nao comia lagosta nem que me pagassem!"
A semana do marisco, um ingrediente estranho aos meus colegas que se recusaram a tocar num camarão que fosse. Palavras que nunca esquecerei “Nao comia lagosta nem que me pagassem!”

Na cozinha connosco estavam também os estudantes adolescentes e outros professores. E foi num dia que eu me neguei a fazer a preparação dos pratos dos miúdos porque queria ter os meus próprios pratos, que um dos professores, um tipo grandalhão e gordo, me disse as palavras que oiço ainda frescas na minha memória.

“Ana, és muito velha e começas muito tarde, nunca, nunca vais trabalhar num restaurante. Os meus alunos estão aqui “ – e levantou o braço acima da cabeça – ”e tu estás aqui” – e baixou o braço aos joelhos.

E embora a minha professora Christine me tenha dito depois que na verdade eu era a melhor aluna da escola (o que não era difícil) foram palavras que nunca esqueci.

Passados muitos meses, já trabalhava no Kramer, certo dia estava eu nas traseiras com o meu head-chef a apanhar ar, quando esse professor e a minha querida Christine passaram por nós.

Ele certamente já se havia esquecido do que me tinha dito. Mas quando eu de uniforme e chapéu de chef lhe apresentei o meu head-chef e lhe disse que sim tinha concluído o resto do curso com nota máxima e que de facto trabalhava como chef num restaurante, senti-me vingada.

Super concentrada a fazer massa folhada. A fotografia é do blogue/diário em sueco que mantive durante o curso.
Super concentrada a fazer massa folhada. A fotografia é do blogue/diário em sueco que mantive durante o curso.

Olho por vezes para a Ana que fez esse primeiro curso, vejo as minhas dúvidas e receios, olho para o meu uniforme branco “um número serve todos” o avental branco que eu detestava. O chapelinho de aprendiz ou padeiro.
E vejo-me agora com um uniforme encomendado só para mim, com o meu nome. Com os meus colegas que são como família e um emprego de que gosto, e ainda que com as minhas lutas e desapontamentos próprios da vida, tenho vontade de dar um abraço à Ana de há dois ou três anos. “Não desistas, não te deixes abater, não imaginas o que está guardado para ti”

Refeições light · refeições rápidas · vegetais e outros acompanhamentos · vegetariano

Saladas em pacotes e a “falha” do meu viking

Quando vivia em Portugal nunca comprava saladas já empacotadas e misturadas. Gostava de fazer a minha própria seleção, e manter vários tipos de alfaces e folhas variadas no frigorífico prontas a preparar as saladas que me apetecesse.

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Aqui, e desde que comecei a trabalhar em cozinhas, admito que mudei um pouco. Fazemos poucas refeições em casa. Eu deixei de ter tempo para as marmitas do viking, e acabo muitas vezes por trazer alguma coisa leve para comer do restaurante.
Com o frigorífico meio cheio, e quando notei que a fruta e os vegetais se começavam a estragar, aderi às embalagens muito mais pequenas, vegetais congelados e pacotes de saladas.

Este domingo, pedi ao viking que fosse ao supermercado do outro lado da rua para nos comprar manteiga e um pacotinho de salada. Foi asneira.
O meu marido é o melhor marido do mundo, um pai dedicado dos nossos meninos, nunca se esquece de aniversários, de datas de concertos, sabe que livros ou presentes me deve comprar, é calmo e educado, inteligente e com um fantástico sentido de humor.

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Mas na cozinha…… eu admiro-me como é que ele sobreviveu antes de me conhecer. (diz-me que sabia cozinhar, mas ao longo destes anos foi-se esquecendo, eu finjo que acredito.)

No domingo chegou a casa com um “pacote de salada”, constituído por dois tipos de couve estilo couve-portuguesa, e alho-francês.
O pacote dizia também que devíamos saltear o produto antes de o servir. Notem bem, o meu marido é sueco, vive na Suécia, sabe ler a sua língua, penso eu.
Não estamos a falar de um imigrante turco que coitado foi às compras e sem perceber nada do que estava escrito no pacote nem reconhecer as verduras do país, trouxe para casa couves em vez de alface.

Eu não me deixei abater, passei as folhas por água, temperei-as com azeite e vinagre e comi-as ao jantar, ou, como devem imaginar, ruminei-as enquanto o viking devorou as suas almondegas.

Ainda tenho mais de meio saco de couves que vão acabar em sopa, mas para o meu almoço de hoje e jantar do marido, fiz uma polenta cremosa com óleo de endro, queijo e as bem-ditas couves.

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Dizem-me por vezes que a polenta não tem sabor, e é um pouco verdade. Este é um ingrediente que precisa de ajuda, um bom caldo de legumes, queijo, manteiga….

Para a vossa polenta devem utilizar as indicações da vossa embalagem no que diz respeito a proporções e tempo de cozedura.

Ingredientes:
Polenta
Caldo de cogumelos
Azeite
Sal e pimenta
Queijo parmesão ralado
Manteiga
Óleo de endro
Couves compradas por engano pelos vossos maridos.
Preparação:
Fervam o caldo de cogumelos, acrescentem a polenta e cozinhem em lume brando mexendo sempre, ou quase sempre.
Ao mesmo tempo escaldem a couve um par de vezes, escorram e salteiem num pouco de azeite.
Quando a polenta estiver cozida, misturem um pouco de manteiga e queijo ralado.
Sirvam com as couves, mais queijo parmesão e um pouco de óleo de endro.

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Vida de blogger – a reportagem do meu dia – O desafio

Ainda antes do hiato da Padaria, tinha pensado em criar este desafio. Quem são os bloggers que acompanhamos todos os dias? Como é a nossa vida quando não estamos ao computador, a cozinhar ou fotografar comida?

O meu desafio é que ao estilo do que eu fiz no post Service Please!, partilhem nos vossos blogs a reportagem de um dos vossos dias.

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Viking, Lestat, Lenore e Willow – os amores da minha vida. Eu vou dormir no sofá.

 

Não precisam de mostrar imagens ou partilhar informações privadas. A fotografia da calçada quando vão a caminho do emprego serve bem para ilustrar o vosso dia.

Todos, independentemente dos nossos empregos ou ocupações temos uma vida para além dos blogues, com famílias, problemas, desafios e alegrias e por isso queria também apontar que o intuito deste passatempo não é encontrar a pessoa com o emprego mais glamoroso, ou a casa mais bonita, ou o blogger mais ocupado.

Não precisam de dizer qual é a vossa ocupação, se estão desempregados ou a estudar. Mas partilhem connosco as fotografias de fruta fresca se forem ao mercado, um livro que estejam a ler…. Pequenos ou grandes detalhes que ocupam os vossos dias e aos quais quem lê os vossos blogues não tem geralmente acesso.

O único intuito do passatempo é conhecermo-nos todos um pouco melhor.

Algumas indicações:

– O passatempo decorre até 7 de Março (têm 5 semanas)

– Para participar basta fazer uma reportagem de um dos vossos dias. Podem usar o título “Vida de blogger – a reportagem do meu dia” ou usar uma pequena expressão que vos seja relevante como o meu “Service Please!”

– Devem mencionar que estão a participar neste passatempo e colocar um link para este post.

-Deixem um link com a vossa participação nos comentários a este post.

– A ordem pela que as participações chegarem servirá de “número de inscrição” aquando do sorteio de 3 pequenas lembranças made in Sweden (nada comprado no Ikea, estejam descansados)

– Podem participar bloggers de todo o mundo.

Cá vos espero!

(Leitores não bloggers estão infelizmente excluídos deste passatempo, mas não perdem pela demora, OK?)

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Sobre regressos, blogues e coisas doces

Nem parece verdade mas a Padaria está aberta há mais de cinco anos. Estes foram também anos de muitas mudanças e aventuras na minha vida o que fez que com durante longos períodos esta casa esteve silenciosa.
A partir desde mês como sabem voltei a ter tempo para o meu blogue é um prazer voltar a estar convosco, ter o forno da padaria quente, ouvir a vossas vozes, ter clientes à volta das mesas.

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Pus também em ordem a minha pequena página do facebook e o nosso Convidei para Jantar voltou às nossas casas!
Apesar das mudanças no trabalho que me assustaram um pouco como todos sabem, tem sido um mês fantástico. Adoro voltar a ter tempo para escrever. Recomecei a usar a máquina fotográfica, a testar receitas para publicar, a responder a  e   mails com dúvidas e pedidos.
E acima de tudo posso finalmente visitar velhos blogues amigos, conhecer casas novas, e participar nas vossas festas e celebrações.

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O Ponto de Rebuçado faz dois anos e eu claro fiz-me convidada à festa da Maria João.
Para um blogue com um nome tão doce tínhamos que preparar algo especial e adequado ao título desta casa.

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Trufas de caramelo e praline de avelãs (versão adultos)

O mais complicado desta receita, se a quiseram fazer igualzinha à minha, talvez seja encontrar a pasta de praline, mas é um produto que podem substituir facilmente por qualquer coisa como Nutella 
Aqui em casa como sabem não há crianças, por isso juntei licor de café às minhas trufas, claro que este é um ingrediente facultativo.

Ingredientes:
150 g de chocolate de leite (usei Caramelia mas podem usar um chocolate de que gostem)
20 g de manteiga
30 gramas de pasta de praline
2 colheres de sopa de natas
Framboesas secas para decorar
1 colher de sopa de licor de café

Preparação
Piquem o chocolate. Derretam todos os ingredientes em banho-maria ou no micro ondas. (não deixem ferver a mistura)
Coloquem numa forma forrada com pelicula aderente. Reservem no frigorífico até solidificar. Cortem em cubinhos, decorem e sirvam.