Já em Julho

Headchef de férias desde o fim de Maio, seguidas de licença de paternidade ponto
Eu à frente do restaurante e do departamento de comida do hotel até ao fim de Agosto ponto
Nickas, um dos nossos chefes, na terceira de cinco semanas de licença ponto
Entre a cozinha e o trabalho de escritório, ementas e encomendas trabalho um mínimo de sessenta horas semanais (excluindo a planificação das semanas que posso fazer em casa) ponto
Se sobreviver a isto conto-vos como foi….
Pequenos updates e fotos na página do Facebook da anasbageri.
Um abraço e boas férias para todos.

História de uma quase pausa ….

Quando voltei a abrir as portas da Padaria prometi a mim mesma qur todas as semanas tiraria umas horas só para a conversa convosco. Visitaria os vossos blogues, contar-vos-ia as minhas novidades, partilharia um pouco do meu dia-a-dia e das minhas receitas.
A verdade é esta: Hoje é domingo. Cheguei agora do restaurante, o viking está no golfe, é a primeira vez que me consigo sentar ao computador, sem ser para trabalhar, em quase duas semanas.
Há uma semana o meu chefe correu literalmente comigo da cozinha por ter excedido em muitas horas o meu horário de trabalho. “Não te quero ver antes de Domingo (hoje)”…e eu já a pensar em tudo o que podia fazer uma semaninha inteira livre…o blogue, passear… (Ao mesmo tempo com um aperto no coração ..tantos dias sem a cozinha, sem os meus colegas… sem o stress dos serviços, sem me cortar ou queimar.. o que vai ser de mim…)
Resignei-me…estas säo as únicas férias que vou ter no Verão.
Segunda-feira de manhã acordei com um telefonema. “Podes vir trabalhar?” “Dá-me 45 minutos…”
Terça-feira tive uma reunião com o pessoal do serviço e pequeno-almoço, quarta-feira nova reunião para planear a semana seguinte. Quinta-feira, quase milagre….ninguém telefonou….fiz as listas de tudo o que temos de comprar no restaurante, fui às compras e preparei um maravilhoso jantar de moules para o meu viking.

Sexta-feira, oito da manhä: “Quanto tempo demoras a chegar aqui?” “Deixa-me ao menos tomar um duche!”
O meu Headchef näo me pergunta se estou em Copenhaga ou na praia, se estou doente, se quero trabalhar, se estou livre…O meu chef telefona….eu pego nas facas e ponho-me a caminho.
Sexta-feira cheguei à cozinha de mau humor. “Eu só faço o serviço de almoco e o teste do novo menú, esta noite vou sair e quero ir a casa tomar banho e arranjar-me!!” Às cinco da tarde abandonei a cozinha, fui jantar com uns amigos a cheirar a pato e alho-francês grelhado.
Sábado, sete e meia da manhã, na ronha com o meu viking…. eu oiço o telefone a estas horas e sei imediatamente: a cozinha está a arder….
“Bom dia!” “Bom dia! Estou a telefonar só para saber com vai tudo.” “Como vai tudo???” “Näo estás a trabalhar no pequeno-almoço??” “Näo! Estou a dormir!!!” “Ai desculpa desculpa, pronto vai-te deitar…até terça-feira, ok….pronto vai descansar…” Dez da manhä: “Ana…telefonaram do hotel…estamos com problemas, o fornecedor não chegou…podes ir às compras?? Achas que podes??” (Hei-de contar-vos como é ir a um supermercado comprar 15 quilos de pimentos, pepinos e afins)

Hoje, como vos disse fiz o serviço de pequeno-almoço. O headchef chegou às dez da manhä no seu dia livre para fazer o inventário e horas de escritório.
Ele: “Com o teu próximo salário recebes também 70 horas extra…. estive agora a fechar o mês…”
Eu: “ Setenta?? Eu trabalhei assim tanto em Maio?”
Ele: “Agora só trabalhas terça-feira, já tens horas a mais…”
Eu: “Amanhä estou livre mas venho depois de almoço para falar contigo e organizarmos o resto das coisas.” (Ele começa as férias terça-feira e eu fico à frente da cozinha e das encomendas.)
Ele: “ok, o Linus e o Johan fazem o serviço de jantar, eu trabalho almoço.”
Eu: “Tu estás sozinho durante o dia com todos os fornecedores aqui e o resto do inventário para fazer? Mais o servico de almoço?”
Ele: “Tens razão. Amanhä comecas às sete da manhã.

Sou uma rapariga organizada, faço listas, planos… Comigo o “ah e tal näo tenho tempo…” não cola. É dormir menos, não ver televisão, organizar o tempo, escolher prioridades…. Sempre fui adepta da expressäo “tempo é a únca coisa que temos, é só escolher o que fazemos com ele.”
Reconheço que ultimamente me tenho questionado: Trabalho demais? Sei que näo tenho um emprego das nove às cinco, sei que como diz um amigo nosso que também é chef “quando trabalhamos menos de 10 horas por dia sentimos que temos apenas um part-time”.
Mas será excessiva a minha obsessão com o meu trabalho?

No próximo post prometo-vos: Nem uma palavra sobre o restaurante! (Como se alguém acreditasse em mim…) Para a próxima falamos apenas de comida! tenho umas receitas que mal posso esperar para vos mostrar.
Um abraço e bom domingo.

Como aqui cheguei….

No último episódio da minha saga deixei-vos em Agosto, ainda a trabalhar em Lomma. Por essa altura recebi a notícia de que poderia continuar a estudar e foi-me oferecido um emprego num infantário em Malmö.
As aulas começaram na segunda quinzena, turno da manhã na escola, até à uma da manhã no restaurante. Em Setembro troquei o ritmo acelarado dos restaurantes pela calmaria de uma cozinha escolar. Trabalhei em dois pequenos infantários com a Carina, uma versão sueca do Simon mas sem a pequena horta. A nossa escola era novinha em folha, fomos nós que abrimos os pacotes e caixas do equipamento, usámos o fogão pela primeira vez, e sonhámos com a nossa hortinha.
A segunda parte do meu curso incluia 35 horas por semana de trabalho prático num resaurante/cozinha industrial e 8 horas de trabalho teórico por semana.
Conversei com os meus professores, e como era trabalhadora estudante foi-me dada a hipótese de usar o meu trabalho como estágio. Mas para vos ser honesta, e embora tivesse gostado muito de trabalhar num infantário, sentia saudades do ritmo e do stress dos restaurantes.
Para aprender o mais possível procurei um restaurante com um headchef com experiência e um tipo de cozinha que me agradasse. Testei primeiro um pequeno restaurante cujo dono/headchef tinha trabalhado no NOMA e Celler de Can Roca, mas não gostei do ambiente do sítio e pedi ao meu professor para trocar de estágio.
Depois de várias sugestões que eu vetei, surgiu a oportunidade de testar a cozinha do Hotel Kramer. Fui a uma entrevista com o headchef mais por curiosidade do que vontade.


Eu estava nesta altura já em desespero de causa. Trabalhava no infantário das 7 às 13.30, metia-me no autocarro para o restaurante onde estagiava até à meia noite pelo menos. Aos fins-de-semana tinha de fazer os trabalhos teóricos.
Cheguei ao Kramer com cara de poucos amigos e decidida a fazer o estágio o mais rapidamente possível para poder acabar o curso.

Conhecer o meu chef foi uma surpresa. Eu esperava que o hotel fosse apenas mais um dos hoteis do grupo Scandic onde todas as cozinhas têm de servir os mesmos menus, mas estava enganada.

Exterior, Bildretusch

Aqui trabalho eu.

O headchef contou-me que tinha trabalhado em restaurantes como o Les Bacchanales em França e o muitíssimo conhecido Geranium em Copenhaga e que embora este fosse um hotel scandic tinha a certeza de que eu ia gostar da cozinha e de trabalhar com ele.

Comecei dois dias mais tarde, no fim de Outubro apenas como estudante. O restaurante do hotel serve almoço com um prato do dia, alternativa peixe e vegetariano, como é costume aqui, e jantar com os clássicos do scandic (dos quais não podemos fugir), e o menu à la carte do meu chef.

Durante o serviço

Durante o serviço

 

Foi amor ao primeiro serviço. Duas semanas depois deixei o meu trabalho no infantário para me poder dedicar apenas ao restaurante.
Em Novembro o headchef ofereceu-me um emprego part-time enquanto estudava, que foi substituido por por um novo contrato assim que acabei o curso.

A preparar sobremesas com o Nickas e o meu chef Tom.

A preparar sobremesas com o Nickas e o meu chef Tom.

Às vezes penso na sorte que tive em chegar aqui. Trabalho num sítio que adoro, com dois chefs que me respeitam e tratam como uma igual embora eu tenha muito menos experiência do que eles, e com um headchef que confia em mim o suficiente para deixar a organização da cozinha e o contacto com os fornecedores nas minhas mãos quando ele näo está no restaurante.
E aqui está meus amigos, a história de uma professora e padeira amadora com um sonho. O sonho de vestir um casaco branquinho, pegar nas minhas facas, subir as escadas e entrar num mundo mägico que é a cozinha de um restaurante, um conto de fadas com direito a palácio e tudo.

Desde a última vez que nos vimos….

Antes de mais o meu mais sincero obrigada a todos! Que bom saber que ainda se lembram de mim! Começo hoje a partilhar convosco o meu último ano. Como tenho tenho tanto para vos contar, e com receio de vos maçar, divido esta actualização em dois posts. Ainda tenho muitos dos vossos comentários por ler, o que farei assim que puder.
É sexta-feira 8am, até domingo estou de folga. (o meu headchef já me enviou 3 sms e já falámos ao telefone duas vezes…isto promete… folgas nesta profissão também näo existem.) Muito raramente tenho dias livres e até agora tinha passado todos os momentos que podia a estudar.

Hoje estou a planear um jantar romântico com o meu viking, talvez uma ida ao cinema, ah..alegria o telefone acabou de tocar…amanhã trabalho das 6.30 am às 2 pm. (Uma das meninas que trabalha no turno do pequeno-almoco caiu na cozinha e está no hospital (nada grave).em caso de emergêcia: Call Ana. Adeus, noite romântica, adeus garrafa de champanhe…adiante.
Da última vez que conversámos como se lembrarão estava eu a fazer um estágio no Restaurante Salt och Brygga. (Antes disso já tinha trabalhado num restaurante de um pasteleiro francês e feito um estágio no Hotel Scandic St jörgen e no restaurante Glasklart.)
Com o estágio no S&B a decorrer, li num jornal uma reportagem sobre um cozinheiro inglês a trabalhar num pequeno infantário onde cultiva uma mini horta. Simon é um defensor ferrenho de uma alimentação mais saudável para as crianças: menos açúcar, nada de pré-fabricados, alimentos produzidos localmente e biológicos…

simon Gilles

Eu senti-me inspirada e cheia de curiosidade em saber como pode uma escola com um apertadissímo budget manter os mesmos standards de um restaurante como o S&B.
Contactei o Simon e consegui um pequeno estágio na sua escola. (Por coincidência o Simon e o Björn, dono do S&B säo antigos conhecidos e abriram há muitos anos o primeiro restaurante vegetariano em Malmö.
A escola do Simon é um local quase mágico, sobre o qual hei-de escrever um post. Depois de o conhecer e me apaixonar pela sua pequena hortinha, por ele e pelos meninos que o ajudavam a regar os legumes e apanhar ervas aromátcas, comecei a considerar uma carreira numa cozinha de uma escola assim em vez de um restaurante. Quando apareceram vagas de empregos para cozinhas escolares candidatei-me…
Durante o estágio com o Simon foi-me oferecido um emprego na escola dele durante umas semanas, e a menina que trabalha com ele perguntou-me se eu estaria interessada em trabalhar aos fins-de-semana num lar de terceira idade.

 

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Eu admito que nunca tal me tinha passado pela cabeça, e mais por educação do que outra coisa respondi que sim. (Pensei eu na altura que a coisa nao ia dar em nada….)
Mas deu, no Sábado seguinte lá fui um pouco contariada, fazer um teste de trabalho no lar. E fiquei encantada, era uma enorme casa particular perto do mar, com jardins, uma cozinha linda… Aceitei o emprego trabalhei neste lar todos os fins-de-semana e Junho e Julho. De todos os empregos que tive este foi o que mais me tocou. Estava sozinha na cozinha 8 horas, e nunca tomei um atalho para ter menos trabalho. Sozinha fazia o pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, lavava os pratos e limpava a cozinha.
A minha compensação era os velhinhos virem à cozinha dizerem-me que adoravam a minha comida e os meus bolos. E as empregadas dizerem-me que todos comiam imenso nos dias em que eu lá estava. (Um post sobre esta experiência que ainda agora me comove daqui a algum tempo.)

No fim de Maio fui também chamada para uma entrevista num restaurante em Lomma (A Cascais aqui do sítio). Era um restaurante que eu conhecia, e sabia que especialmente no Veräo e por estar localizado praticamente na praia, teria muitos clientes e seria um bom local para eu aprender a trabalhar sob muita pressäo. Sabia também que, e por ser um restaurante de cozinha aberta, o chef era um tipo duro que gritava que se fartava com a sua brigada durantes os serviços. Como imaginam o local ideal para mim….

Nesse restaurante trabalhei até ao fim de Agosto. Foi duríssimo, e deurante este período vários chefes com muito mais experiência do que eu acabaram por se demitir. Os gritos, o calor imenso, a tremenda falta de união do pessoal, a forma como as mulheres cozinheiras eram tratadas por algumas pessoas…
Salvaram a situação meu headchef/ dono do Restaurante Andrée e a sua mulher que trabalha na frente da casa. Embora o Andrée seja extremamente exigente, é um chef que adora a sua profissäo e foi um excelente mentor.

O eu Headchef Andrée e a sua mulher Åsa. Acima algumas imagens do restaurante

Ter passado por esta experiência täo dura foi importante para mim. Comparado com Lomma tudo o resto é um passeio no parque.
E com o fim do Veräo chegamos também ao fim da primeira parte dos post em vos contarei como passei o último ano.
Cenas do próximo episódio:
Fine dinning? Escola? Hotel? – Onde continuar?
O início de mais dois semestres a estudar.
Como conheci o meu headchef e fui parar ao restaurante onde trabalho.

Um grande abraco a todos e votos de um fim-de-semana cheio de Sol.