Convidei para Jantar …um poema

O CpJ decorre este mês em casa da Cristina que nos desafiou a convidar para nossas casas um poema.

Escolhi Caranguejola de Mário de Sá Carneiro. Oferereço-lhe não bolos  de ovos e uma garrafa de Madeira mas nozes,  o bolo que me lembro ter comido há muitos anos depois de ter visto Conversa Acabada na Cinemateca. As nozes, que de facto são feitas de amêndoas,  são um dos meus  bolinhos favoritos, recordo-me de que as nozes da antiga Lua de Mel eram uma delícia. O ritual mantem-se o mesmo: uma noz doce e estaladiça, um café cheio sem açúcar.

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Caranguejola
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!DSC_0544

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira -
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! Levem-me prà enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

                                                                                       Paris - Novembro 1915

A receita que usei é a da Vaqueiro, meia receita rendeu para 10 nozes, quase o suficiente para apaziguar a minha gula. Como sempre quando faço nozes o recheio passado algum tempo começa a amolecer, será do calor do caramelo?

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14 comments

  1. Muito bom, Ana! Adoro este poema de Mário de Sá Carneiro e a ponte que fizeste com os doces é “deliciosa”. Parabéns pela participação!

  2. Ana
    Como sempre a tua participação roça a perfeição!
    Há tanto tempo que não lia este poema. O desafio teve o condão de me despertar novamente para a poesia que deixo tantas vezes adormecida, em benefício de outras opções.
    Não publicaste a receita ou está escondida em algum link?
    Um abraço,
    Guida

  3. Já tinha saudades de te ler e apreciar as tuas magníficas fotos :)
    Adorei o poema e o docinho com que o apresentás-te parece que se pertencem :)
    Parabéns pela participação ;)

    beijinhos

  4. As saudades que já tinha de visitar esta cozinha tão modesta quanto eu… :p

    hmmm, não sou fã das nozes mas adoro a caranguejola em que vieste “montada”. Bjis enormes com saudades!

  5. Que bom ler-te Ana :)
    Com um lindo poema e as nozes tão boas e quase poeticas.
    Apetece roubar uma e deliciar ao sabor dos nossos doces tradicionais.
    Um beijinho de saudades.

  6. Olá Ana,
    Que bom que voltas te!!!E que retorno tão docinho e poético!
    Adoro estes doces pecaminosos em ponto pequeno!!!Parece que os podemos comer sem sentir tanta culpa… :)
    Bjokas
    Rita

  7. Olá ana, que bom este intervalo no teu Silêncio! Espero que o Curso esteja a correr muito bem.
    Parabéns pela tua participação no Cpj. No poema que eu não conhecia, pareceu-me ver uma pessoa que conheço muito bem, imagina! Ah, mas as “nozes”, o nome por que eu conhecia os docinhos que apresentas, gosto tanto delas! São o doce preferido de um dos meus filhos que vive em Inglaterra. Que saudades! Parabéns pelas fotos fabulosas. Páscoa Feliz! Bjs. Bombom

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